Os negros e a crisi: o que fazer?

A resposta a essa questão latente na sociedade brasileira parece se constituir num desafio de difícil solução para todas as partes envolvidas nessa responsabilidade, frente ao descarrilamento social gerado pela crise política e econômica que assola o país, travando o desenvolvimento, gerando a maior onda de desemprego da história, e promovendo a mudança para uma agenda de centro direita que não tem simpatia pela flexibilização do mérito.

Desta forma, o resultado vistoso da mais expressiva condução estatal na conta da cidadania e promoção dos direitos humanos, as políticas afirmativas para inclusão e igualização dos negros na sociedade poderão se transformar em inexorável contradição da política publica do país, prejuízo para todos e terrível derrota para os negros brasileiros.

A despeito dos elevados graus de racismo e discriminação racial contra os negros que informa e entrecorta a historia e o cotidiano dos brasileiros, e da grande resistência de parte significativa da elite econômica, intelectual e mesmo de camada simples da população, o país conseguiu avançar significativamente na produção de importantes políticas publicas para enfrentar o profundo fosso social que separam brancos e negros no Brasil.

Reconhecendo a justiça, necessidade e a inexorabilidade dessas imperiosas ações estratégicas, o governo deixou a neutralidade de lado e apostou na posição em favor de medidas afirmativas para acelerar o processo de inclusão e igualização social de negros.

Com apoio do congresso nacional o governo aprovou as legislações necessárias para garantir a reserva legal que permitisse a efetivação de suas medidas, e com a solidariedade do judiciário, reconheceu e declarou a constitucionalidade dessas leis.

Assim, 120 anos depois da Abolição da Escravatura, os negros finalmente conhecem as primeiras ações políticas e legislações que procuram minimizar o sofrido caminho e prejuízo desde abolição. Ainda que tardia, a tímida promoção da inclusão social tendo como parâmetro as ações e políticas afirmativas governamentais dos dias atuais, iniciam um longo processo de qualificação, inclusão, equalização e empoderamento do negro brasileiro.

Todavia, só para ficar no âmbito da educação, ao passo que alcança um exercito de quase um milhão de futuros formados no ensino superior, frente a pouco de 300 mil de 15 anos atrás, essa verdadeira elite intelectual e, possivelmente política e econômica se vê interditada de seguir seu curso normal e necessário, em decorrência dos resultados da crise política e econômica do país.

São os trabalhadores negros a grande maioria dos prejudicados com a perda do emprego gerada pela grave crise econômica que já alcança quase 13 milhões de trabalhadores.

São os trabalhadores negros os mais excluídos do acesso ao mercado de trabalho em geral, especialmente nos quadros mais qualificados nas grandes empresas do país, onde são apenas 4,7 dos quadros executivos, embora representem 54% da população.

Tolhido pelo desemprego e, conseqüentemente, arremetido ao ponto de partida que antecedeu as políticas afirmativas; fustigado por uma agenda política de centro direita avessa a flexibilização do mérito e combatido por altíssimo grau de discriminação e preconceito presente nos espaços prestigiados da sociedade, em especial, no ambiente corporativo, qual será o destino e a sorte dessa legião de talentos negros brasileiros, forjados na resiliência e capacidade de superação?

Onde irá desaguar e qual uso será extraído desse conhecimento extraordinariamente qualificado e que consumiu valiosos recursos da sociedade? Qual será o resultado e a entrega final do Programa de Ações Afirmativas para toda a sociedade?

Como garantir o processo de democratização, igualização e empoderamento se a nova elite negra treinada e qualificada a peso de ouro periga de ficar excluída e fora do jogo?

Os negros estavam de fora por não tinham o conhecimento, os negros ficarão de fora, de novo, porque tem o conhecimento?

O que fazer eis a questão.

ISSN: 1022-9833

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